O livro dos Salmos é um dos mais lidos e utilizados pelo povo cristão. Nele podemos encontrar as expressões mais profundas do coração humano, que nos mostram o quão frágeis somos e como o direcionar-nos a Deus nos proporciona um viver agradável.
Martinho Lutero ao comentar sobre os autores dos poemas escritos nesse livro, com propriedade disse: “Onde encontraremos palavras mais agradáveis do que nos salmos de louvor e gratidão? Lá você olha para os corações de todos os santos, como em feira e jardins agradáveis, sim, como no próprio céu. Lá você vê que flores lindas e agradáveis brotam do coração para todos os tipos de belos e alegres pensamentos dirigidos a Deus, por causa de sua bênção. Por outro lado, onde você encontra palavras mais profundas, mais tristes, mais melancólicas sobre a loucura do que nos salmos de lamentação? Lá, mais uma vez, você olha para os corações de todos os santos, como olha para a morte, sim, como olha para o próprio inferno. Quão triste e escuro é lá, com todos os tipos de sentimentos conturbados sobre a ira de Deus! Assim, também, quando eles falam de medo e esperança, eles usam tais palavras que nenhum pintor poderia descrevê-las como medo e esperança, e nem Cícero ou qualquer outro orador as descreveriam assim.”.
É um livro recheado de lágrimas e sorrisos, amargura e alegria, conflitos e soluções. Cheio de palavras antagônicas, mas que revelam toda a Soberania de Deus ante a fragilidade humana. “Ou melhor, o Espírito Santo, aqui, trouxe à vida todos os sentimentos, todas as tristezas, medos, dúvidas, cuidados, perplexidades, em síntese, todas as emoções que podem agitar a mente humana.” (João Calvino).
Nele encontra-se uma verdadeira base de como ser uma pessoa espiritual, ou seja, aquela pessoa que busca ser a expressão do Reino de Deus aqui na Terra. Como já citado acima, as palavras nele registradas nos revelam que mesmo que sejamos falíveis, mortais, condicionados a uma fragilidade emocional, física e, até mesmo, espiritual, se soubermos priorizar dentro do nosso coração o ter Deus em primeiro lugar, poderemos vivenciar aqui na terra todos os prazeres que já nos estão reservados nos céus. Essa base é formada por características que podem ser especificadas como dar louvores, ser honesto, manter as lembranças sempre vivas, possuir uma moralidade digna, modificar o que não seja adequado, confiar sempre em Deus e viver uma vida de ação de graças constantemente.
Dentro dos 150 Salmos, há um conjunto que possui em sua titulação a nomenclatura de Cântico dos Degraus ou Cântico das Peregrinações (termo hebraico Shirha-maaloth). Tal grupo é composto pelos Salmos
Tentar elucidar o motivo de tal título promoveu a formulação de várias teorias, todas elas provenientes de homens que buscaram bíblica e historicamente expor tal razão. Diante de tantas citações e explicações, não é de suma importância para nosso crescimento espiritual tal explanação, vale apenas como curiosidade teológica expor que o mais comumente aceito seja que tais hinos fossem usados durante as peregrinações que o povo israelita deveria fazer todos os anos a Jerusalém, pelo menos em uma das três festas instituídas por Deus (“Três vezes por ano todos os seus homens se apresentarão ao Senhor, o seu Deus, no local que Ele escolher, por ocasião da festa dos pães sem fermento, da festa das semanas e da festa das cabanas. Nenhum deles deverá apresentar-se ao Senhor de mãos vazias;” (Dt 16.16)).
Algumas teorias também encontradas:
- A tradição judaica antiga diz que tais Salmos faziam parte de uma liturgia associada a 15 passos que havia entre os pátios do Templo;
- Outra sugere que esses poemas eram cantados pelos peregrinos quando regressaram da Babilônia para Jerusalém ao final do exílio;
- Uma terceira teoria tem mais haver com o estilo dos Salmos, que manifestam uma progressão bem marcada de temas e pensamentos. Spurgeon citou os mesmos dessa forma, como uma sucessão de passos dados do vale do choro até à presença de Deus: (1) aflição; (2) olhando para Deus; (3) gozo em comunhão; (4) invocação; (5) agradecimento; (6) confiança; (7) paciente espera por livramento; (8) favor divino; (9) temor de Deus; (10) martírio; (11) ódio ao pecado; (12) humildade; (13) desejo pela vinda de Cristo; (14) concordância e caridade; (15) continuada bênção de Deus.
Independente de compreensões particulares ou não sobre a questão do seu título, podemos dizer que esta coleção constitui uma espécie de Pequeno Saltério, que podem ter seus hinos divididos em 5 grupos de 3 Salmos cada:
- Salmo 120 ao 122: expressam as pressões externas à alma das pessoas espirituais, que esperam a intervenção divina e celebram a eleição de Sião como o centro da revelação de Deus à humanidade;
- Salmo 123 ao 125: possuem a mesma característica dos primeiros;
- Salmo 126 ao 128: incluem temas que são característica da literatura sapiencial, possuindo temas mais filosóficos;
- Salmo 129 ao 131: particularmente mais individuais e piedosos, pois destacam um tema muito pessoal, a paciência;
- Salmo 132 ao 134: sobressai o tema da eleição divina e do pacto.

